Maria Narcisa Gomes de Sousa, funcionária na Escola Secundária de Vinhais há vinte e cinco anos, depois de ter começado como servente no antigo Ciclo Preparatório de Vinhais, logo após o 25 de Abril de 74, é aos 65 anos uma mulher realizada e feliz (a recente confirmação de aposentação recolocou-lhe nos lábios aquele sorriso tranquilo de quem chegou ao fim de uma etapa e se sente satisfeita com o trabalho realizado).
A um curto passo da sua aposentação, conhecendo-lhe o gosto pelos livros, convidámos D. Narcisa a partilhar connosco a sua relação com os livros, com a leitura e o prazer que dela frui.
Para nosso regozijo, D. Narcisa aceitou o nosso convite com um sorriso carregado de entusiasmo, sem perder a humildade de quem acaba de ser surpreendida com uma proposta simultaneamente aliciante e assustadora, pelo receio de não estar à altura.
Eu gosto muito de ler, mas nem sempre fui assim. - Começou por nos dizer.
Quando andava na Escola não gostava, porque nessa altura, também tínhamos muito que estudar e nem dava tempo para ler. Ler era em história, matéria de que eu gostava muito. Era preciso saber tudo de cor. A gente tinha de saber o nome dos reis, os cognomes e quem eram os pais. Tinha de se saber tudo, assim como os rios, as províncias e distritos. Eu ficava cheia de ler, mas quando fiz treze anos comecei a ler.
Os olhos de D. Narcisa ganham um brilho mais intenso quando recorda os anos da viragem, como se o prazer então sentido, lhe corresse novamente pelas veias.
Eu morava numa quinta e não tinha luz eléctrica – nessa altura pouca gente tinha – e então eu lia à luz da candeia, muitas vezes até às três ou quatro horas da manhã. Porque, quando começava a ler um livro e gostava, ficava ansiosa por conhecer o fim. Eu li muitos livros e muitas colecções completas, como por exemplo: Os Cinco, Agatha Christie, Patrícia e muitos mais. Antes, eu gostava mais de romances, onde as relações amorosas me faziam sonhar. Agora, não. Agora, gosto mais de livros de acção e aventura e de suspense, livros que me chamem a atenção e me distraiam, porque a idade também já é outra.
D. Narcisa recorda-nos as agruras dos seus tempos de moça, deixando que por momentos uma ténue névoa lhe cubra o rosto.
Como gostava de ler e não havia dinheiro para comprar livros, ou pedia-os emprestados, ou ia à Biblioteca Itinerante e os senhores já sabiam de que livros eu gostava, pois eles já os traziam separados para mim.
D. Narcisa termina relembrando-nos o seu apego ao livro, deixando ainda uma mensagem aos mais novos, para que procurem no livro o aconchego que ela própria experimentou e continua a vivenciar.
Eu já li tanto que já não têm conta os livros que li e só peço aos jovens de agora que leiam, porque o livro é um amigo e uma companhia muito boa.
Obrigado, D. Narcisa e bem-haja.
Orlando Rodrigues, Professor Bibliotecário





