quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

LITANIA DO NATAL


LITANIA DO NATAL


A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?

Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.
E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»
Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.
E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»
De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»
E assim, mais uma vez,
Jesus nascia.


José Régio

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Noite de Natal




Era a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão-se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.


Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.


Mário de Sá-Carneiro, in 'Antologia Poética'

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O Menino já Nasceu

O  Menino já nasceu, Deixai-o estar sossegado
Na sua caminha de oiro
Com a mãe e o pai ao lado!


Vai-te embora rouxinol P’ra longe desse loureiro,
Deixa dormir o Menino
Que está no sono primeiro!

Tu também, ó cotovia, Já são horas de parar!
Se não paras, o Menino
Não tarda, vai acordar!

E tu, ó melro atrevido,
Que te escondes no silvado,
Vem só cantar ao Menino
Quando estiver acordado!

O Menino dorme, dorme,
Naquele sono profundo...!
Quando mais logo acordar
Vai sabê-lo todo o mundo!



 Alexandre Parafita, in Histórias de Natal contadas em verso

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Este Menino

Este Menino
É pequenino
Qual passarinho
O querer poisar
Devagarinho.


Devagarinho
Poisa no ninho
Que o colo tem: 
Ninho do colo
Da sua mãe.


In O Livro do Natal Menéres, Maria Alberta


domingo, 4 de dezembro de 2016

NATAL

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Miguel Torga

sábado, 3 de dezembro de 2016

Chove. É Dia de Natal

Chove. É Dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.


Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.



Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Prelúdio de Natal

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas


Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas


a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas


A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Poemas Natalícios

Neste Natal,  a biblioteca vai publicar, de 1 a 25 de dezembro, um poema alusivo a esta quadra.


DEZEMBRO

Dezembro entrou
Em bicos de pés,


Branquinho
De arminho
Espalhando a neve
De lés a lés.
Ouve-se ao longe
Música leve,
Celestial…
Daqui a pouco
Chega o Natal!...
 In O Meu Livro das Festas, de Clara Abreu